A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima quase 15 milhões de mortes em excesso associadas à COVID-19 no mundo em 2020 e 2021, definidas como a diferença entre o número total de mortes (por todas as causas) e o número de mortes esperadas se não houvesse pandemia.[1]No Brasil, a OMS estima 99 e 220 mortes em excesso associadas à pandemia de COVID-19 por 100.000 habitantes em 2020 e 2021, respectivamente.[1] Isso se traduziria em cerca de 680.000 mortes a mais nos dois primeiros anos da pandemia, ou seja, dezenas de milhares a mais do que as mortes por COVID-19 oficialmente relatadas no período. Muitas dessas mortes em excesso estão relacionadas à subnotificação devido à falta de testes ou a diagnósticos incorretos (mortes verdadeiras por COVID-19 atribuídas a outras condições). Outros eventos fatais foram por outras causas e de alguma forma indiretamente associados à pandemia, como as mortes por doenças não tratadas adequadamente devido ao sistema de saúde sobrecarregado. Considerando que as doenças cardiovasculares (DCV) são a principal causa de morte no Brasil,[2] é crucial desvendar o impacto da COVID-19 nas estatísticas de DCV.Nesse contexto, Armstrong et al.,[3] analisando dados de hospitais públicos no Brasil, relatam que o número de óbitos hospitalares por DCV em 2020 foi apenas 1,58% inferior ao esperado com base na média dos anos anteriores. No entanto, a taxa de letalidade hospitalar por DCV aumentou 13,3% em todo o ano e 18,8% de março a dezembro.[3]Esses achados estão de acordo com outros estudos que relataram, durante a pandemia, redução no número de pacientes que procuram atendimento médico, diminuição das internações e procedimentos por DCV, pacientes hospitalizados mais graves e, consequentemente, aumento da letalidade hospitalar por DCV.[4-10] É importante ressaltar que um achado repetidamente relatado é um aumento desconfortável nas mortes domiciliares.[11-13] Portanto, agora está claro que a pandemia impactou substancialmente o cuidado com DCV no Brasil.Quais são os aprendizados deste diagnóstico? Em primeiro lugar, espera-se que os médicos tenham aprendido que há casos em que a investigação, intervenção ou hospitalização não podem ser adiadas. Em segundo lugar, há um grande espaço para educar os pacientes sobre os sinais de alerta de condições graves, como síndrome coronariana aguda e acidente vascular cerebral, minimizando as mortes em casa devidas ao medo do paciente de ir ao hospital. Terceiro, suavizar as consequências da pandemia só é possível com um sistema de saúde bem preparado que possa responder rapidamente às demandas do surto sem comprometer o atendimento de outras doenças mortais. O Brasil não está acostumado a desastres naturais ou pandemias, e muitos subestimaram os danos potenciais do vírus. Agora nós temos a oportunidade de aprender com a experiência, como os países asiáticos fizeram com a epidemia de SARS em 2003, e melhor nos prepararmos para futuros eventos catastróficos.Após a fase mais crítica, pré-vacinação, da pandemia, a atenção agora se volta para outra preocupação: até que ponto o cancelamento de consultas e procedimentos médicos forçados pela pandemia afetará as DCV? O controle inadequado dos fatores de risco e as intervenções realizadas tardiamente podem adicionar outra camada ao impacto da pandemia de COVID-19 nos desfechos das DCV. O monitoramento contínuo da situação é necessário e provavelmente será abordado por estudos futuros.Outro aspecto relevante é reconhecer que os efeitos da pandemia não são uniformes na comunidade. Marinho et al.,[14] encontraram um excesso de mortalidade de 26,3% (23,3%-29,3%) entre pretos/pardos no Brasil em 2020, enquanto esse número foi de 15,1% (14,1%-16,1%) em brancos.[14] Em Belo Horizonte-MG, o excesso de mortalidade em 2020 aumentou à medida que o Índice de Vulnerabilidade à Saúde piorou.[15] Além disso, Brant et al. relataram que o aumento de óbitos domiciliares por DCV em Belo Horizonte-MG em 2020 foi mais acentuado em indivíduos mais vulneráveis socialmente.[13] Identificar os subgrupos mais afetados é estratégico para definir alvos prioritários para intervenções de saúde pública e evitar o perigoso caminho de aumento das desigualdades em saúde.Nas últimas décadas, observamos um declínio contínuo da mortalidade por DCV ajustada por idade no Brasil, embora essa queda tenha se atenuado nos últimos anos.[2] Ainda não está claro se a pandemia modificará substancialmente essa tendência. No entanto, a mudança no padrão de internações por DCV e o aumento inaceitável de óbitos domiciliares não podem ser assistidos passivamente sem perplexidade. É hora de aprender com os dados e agir para minimizar os impactos da pandemia nos desfechos das DCV.The World Health Organization (WHO) estimates nearly 15 million excess deaths associated with COVID-19 in the world in 2020 and 2021, defined as the difference between the total number of deaths (from all causes) and the number of expected deaths if there was no pandemic.[1]In Brazil, the WHO estimates 99 and 220 excess deaths associated with the COVID-19 pandemic per 100,000 inhabitants in 2020 and 2021, respectively.[1] This would translate into around 680,000 excess deaths in the first two years of the pandemic, i.e., tens of thousands higher than the officially reported COVID-19 deaths in the period. Many of these excess deaths are related to sub notification due to lack of testing or misdiagnosis (true deaths from COVID-19 assigned to other conditions). Other fatal events were from other causes and somehow indirectly associated with the pandemic, such as the deaths from illnesses not properly treated due to the overwhelmed health system. Considering that cardiovascular disease (CVD) is the main cause of death in Brazil,[2] it is crucial to unravel the impact of COVID-19 on CVD statistics.In this context, Armstrong et al.,[3] analyzing data from public hospitals in Brazil, report that the number of in-hospital deaths due to CVD in 2020 was only 1.58% lower than expected based on the average of previous years. However, the in-hospital case fatality rate due to CVD increased by 13.3% in the whole year and by 18.8% from March to December.[3]These findings are in agreement with other studies that reported, during the pandemic, a reduction in the number of patients seeking medical care, a decrease in CVD hospitalizations and procedures, more severely diseased hospitalized patients, and consequently an increase in hospital lethality due to CVD.[4-10] Importantly, a repeatedly reported finding is an uncomfortable increase in home deaths.[11-13] Therefore, it is now clear that the pandemic has substantially impacted CVD care in Brazil.What are the takeaways from this diagnosis? First, physicians are expected to have learned that there are cases where the investigation, intervention, or hospitalization cannot be postponed. Second, there is a large room to educate patients about warning signs of severe conditions, such as acute coronary syndrome and stroke, minimizing the home deaths due to patient fear of going to the hospital. Third, smoothing the consequences of the pandemic is only possible with a well-prepared health system that can rapidly respond to the outbreak's demands while not compromising the care of other deadly diseases. Brazil is not used to natural disasters or pandemics, and many underestimated the potential damage of the virus. Now we have the opportunity to learn from the experience as Asian countries did from the SARS epidemic in 2003 and better prepare ourselves for future catastrophic events.After the most critical, pre-vaccination phase of the pandemic, the attention now shifts to another concern: to which extent will the cancellation of medical consultations and procedures forced by the pandemic affect CVD? Suboptimal risk factor control and interventions carried out late may add another layer to the impact of the COVID-19 pandemic on CVD outcomes. Continuous monitoring of the situation is needed and will probably be addressed by future studies.Another relevant aspect is to acknowledge that the effects of the pandemic are not uniform in the community. Marinho et al.[14] found an excess mortality rate of 26.3% (23.3%-29.3%) among blacks/browns in Brazil in 2020, while this number was 15.1% (14.1%-16.1%) in whites.[14] In Belo Horizonte-MG, the excess mortality in 2020 increased as the Health Vulnerability Index worsened.[15] Also, Brant et al. reported that the increase in CVD home deaths in Belo Horizonte-MG in 2020 was more pronounced in more socially vulnerable individuals.[13] Identifying the most affected subgroups is strategic for defining priority targets for public health interventions and avoiding the dangerous path of increasing health inequalities.In the last decades, we have observed a continuous decline in the age-adjusted CVD mortality in Brazil, although this decrease has attenuated in the last years.[2] It is not yet clear whether the pandemic will substantially modify this trend. Nevertheless, the change in the pattern of hospitalizations for CVD and the unacceptable increase in home deaths cannot be passively watched without perplexity. It is time to learn from the data and act to minimize the impacts of the pandemic on CVD outcomes.
Authors: Gláucia Maria Moraes de Oliveira; Luisa Campos Caldeira Brant; Carisi Anne Polanczyk; Deborah Carvalho Malta; Andreia Biolo; Bruno Ramos Nascimento; Maria de Fatima Marinho de Souza; Andrea Rocha De Lorenzo; Antonio Aurélio de Paiva Fagundes Júnior; Beatriz D Schaan; Fábio Morato de Castilho; Fernando Henpin Yue Cesena; Gabriel Porto Soares; Gesner Francisco Xavier Junior; Jose Augusto Soares Barreto Filho; Luiz Guilherme Passaglia; Marcelo Martins Pinto Filho; M Julia Machline-Carrion; Marcio Sommer Bittencourt; Octavio M Pontes Neto; Paolo Blanco Villela; Renato Azeredo Teixeira; Roney Orismar Sampaio; Thomaz A Gaziano; Pablo Perel; Gregory A Roth; Antonio Luiz Pinho Ribeiro Journal: Arq Bras Cardiol Date: 2022-01 Impact factor: 2.000
Authors: Rodrigo Julio Cerci; João Vicente Vitola; Diana Paez; Alejandro Zuluaga; Marcio Sommer Bittencourt; Lilia M Sierra-Galan; Patricia Carrascosa; Roxana Campisi; Claudia Gutierrez-Villamil; Amalia Peix; Duane Chambers; Mayra Sánches Velez; Carla M G Alvarado; Ana C F Ventura; Alejandro Maldonado; Alfredo P Castanos; Teresa C Diaz; Yariela Herrera; Manuel C Vasquez; Ana A Arrieta; Fernando Mut; Cole Hirschfeld; Eli Malkovskiy; Benjamin Goebel; Yosef Cohen; Michael Randazzo; Leslee J Shaw; Michelle C Williams; Todd C Villines; Nathan Better; Sharmila Dorbala; Paolo Raggi; Thomas N B Pascual; Yaroslav Pynda; Maurizio Dondi; Andrew J Einstein Journal: Arq Bras Cardiol Date: 2022-04 Impact factor: 2.000
Authors: Luisa C C Brant; Pedro C Pinheiro; Antonio L P Ribeiro; Isis E Machado; Paulo R L Correa; Mayara R Santos; Maria de Fatima Marinho de Souza; Deborah C Malta; Valéria M A Passos Journal: Glob Heart Date: 2022-02-21
Authors: Valéria Maria de Azeredo Passos; Luisa Campos Caldeira Brant; Pedro Cisalpino Pinheiro; Paulo Roberto Lopes Correa; Isis Eloah Machado; Mayara Rocha Santos; Antonio Luiz Pinho Ribeiro; Lucia Maria Miana Paixão; Fabiano Geraldo Pimenta Junior; Maria de Fatima Marinho de Souza; Deborah Carvalho Malta Journal: Rev Bras Epidemiol Date: 2021-06-30