Caro Editor,O estudo de Paiva et al. avaliou a incidência de pacientes infectados pelo vírus COVID-19, associado a doenças cardiovasculares (DCV), no Brasil. No estudo, conclui- se que a alta prevalência de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) em adultos e idosos relaciona-se com características sociodemográficas, clínicas, sinais e sintomas. Visto isso, reitera-se a importância da atenção primária à saúde – a fim da manutenção das consultas periódicas, visando controle da doença e sintomatologia, ao passo que a presença de comorbidades cardiovasculares aumenta em casos severos de COVID-19.No estudo, a população estudada foi de 116.343 pacientes, dos quais 61,9% foram diagnosticados por SRAG causada por COVID-19. Ao mesmo tempo, o estudo demonstra que a presença de doenças crônicas pode ser considerada fator de risco à infecção por COVID-19, devido a maiores vulnerabilidade e morbimortalidade. Sendo assim, pacientes com DCV prévia são mais predisponentes a desenvolverem quadros mais graves. Entretanto, no sexo feminino, observou-se uma menor prevalência de SRAG por COVID-19 devido ao fato de haver variação entre a resposta imunológica e a susceptibilidade a infecções virais entre os sexos, o que gera, assim, diferenças na gravidade e evolução da doença.Em Wuhan, na China, uma metanálise com 46.248 pacientes infectados analisou as comorbidades mais prevalentes, estando a DCV (5±4%) em terceiro lugar. Foram avaliados, por Wang e colaboradores, 2020, somente pacientes hospitalizados acometidos pela infecção viral, os quais apresentaram maior prevalência – 19,6% – de DCV, um dado reforça o fato de que a comorbidade DCV contribui para o agravo da gravidade da COVID-19, visto a evidente necessidade de internação. Além disso, os pacientes demonstraram evolução com maior hipoxemia e imprescindível internação em UTIs.
O estudo realizado por Melo evidenciou resultados semelhantes a achados de um estudo na Itália – ambos analisados no decorrer de sete dias no mês de março de 2020; constatou-se decréscimo de 13% de pacientes com infarto agudo do miocárdio (IAM) quando associados na mesma semana do ano de 2019. Por outro lado, mesmo ocorrendo uma redução de casos de IAM e da taxa de números de óbitos hospitalares, houve um aumento na taxa de letalidade intra-hospitalar nas internações por DCV. Ambos os estudos demonstraram a relação da COVID-19 com a alta taxa de prevalência de lesões cardíacas e um grande potencial de gravidade da COVID-19 nas DCV, em que a letalidade em pacientes internados com DCV alcançou parcela mais economicamente ativa da população – de 20 a 59 anos.Visto isso, destaca-se a importância do acompanhamento médico a pacientes portadores de doenças crônicas, já que, segundo Askin et al., no ano de 2020, houve aumento acentuado no dano do miocárdio de pacientes com COVID-19, aumentando o risco de morbimortalidade. Dessa forma, a valorização da DCV como complicação associada ao vírus COVID-19, devido ao agravamento da sintomatologia da doença, é de extrema significância para a atenção básica à saúde.A presente situação exige estratégias que visem a prevenção de complicações associadas a doenças crônicas, como DCV. Portanto, os dados atuais demonstram a necessidade de atenção especial aos pacientes do grupo de risco assim como um manejo adequado das complicações cardiovasculares, visando uma rápida identificação e aplicação de tratamento adequado. Ademais, recomenda-se aos portadores de DCV a atualização das vacinas devido ao risco de infecção bacteriana secundária pelo SARS-CoV-2, assim como a adesão à dieta adequada, sono regular e atividade física, evitando o tabagismo e etilismo.
Carta-resposta
Agradecemos aos autores pela análise submetida “Prevalência e Fatores Associados à SRAG por COVID-19 em Adultos e Idosos com Doença Cardiovascular Crônica: Uma Análise Crítica”, em especial pela exposição de dados que reforçam os achados apresentados em nosso estudo.
Destaca-se também a relevância da análise em relação ao aumento das taxas de letalidade intra-hospitalar nas internações por doenças cardiovasculares (DCV) como fator potencializador da necessidade de valorização deste grupo de risco na análise das complicações associadas à COVID-19.As DCV já são estabelecidas como marcadores de risco na atenção primária à saúde (APS) brasileira, com o intuito de garantir a longitudinalidade do cuidado ao usuário e o desenvolvimento de estratégias preventivas voltadas ao cuidado integral da comunidade,
porém é essencial o questionamento quanto à aplicabilidade destas ações na estratégia de saúde da família (ESF). O desafio do monitoramento ao usuário como forma de gestão às DCV sugere ultrapassar o imperativo das ações que apoiam o sistema diagnóstico e terapêutico no cuidado e manejo às condições crônicas.
Neste sentido, um estudo publicado recentemente, com mais de 100 milhões de participantes de todo o mundo, destaca a importância da prevenção, da detecção e do controle na atenção primária, inclusive em países de baixa e média renda, com propostas de ações como uso de mensagens de texto para acompanhar os usuários com fatores de risco.No contexto atual de enfrentamento à pandemia da COVID-19, esta discussão torna-se ainda mais relevante, pois, conforme reforçado pelos autores que realizaram a análise crítica, o agravamento da sintomatologia da COVID-19 coloca as DCV como um fator de risco importante às ações de rastreio, manejo e intervenção precoce.Estudos sugerem a criação de propostas de modelos de cuidados às condições crônicas, como as DCV, envolvendo formação de grupos focais, que obtiveram resultados positivos na adesão da comunidade, melhora de indicadores clínicos durante o acompanhamento, adoção de prática de autocuidado e melhor análise das prioridades no planejamento em saúde.
De forma similar, a Organização Mundial de Saúde (OMS) lançou um guia de implementação para gestão de DCV na atenção primária, com propostas de triagem, avaliação e manejo de riscos neste nível de atenção e educação em saúde para profissionais quanto ao rastreio de fatores de risco, intervenções no estilo de vida e encaminhamentos necessários.
Especialmente acerca do manejo em usuários com DCV e sintomas persistentes pós-COVID-19, a complexidade clínica e psicossocial proporcionada pela coexistência dessas condições implica a necessidade de um cuidado multiprofissional e de longo prazo. Finalizamos, assim, agradecendo à possibilidade de reforçar a necessidade de se rever as ações na atenção primária à saúde, em especial em nosso atual contexto de saúde.Dear Editor,The study by Paiva et al. evaluated the incidence of patients infected with the COVID-19 virus, associated with cardiovascular diseases (CVD), in Brazil. It is concluded that the high prevalence of severe acute respiratory syndrome (SARS) in adults and in the elderly is related to sociodemographic and clinical characteristics, signs and symptoms. In view of that, the importance of primary health care is reiterated – in order to maintain regular medical visits aiming at controlling the disease and symptoms, while the presence of cardiovascular comorbidities increases in severe COVID-19 cases.The study included 116,343 patients, of whom 61.9% were diagnosed with SARS caused by COVID-19. At the same time, the study demonstrates that the presence of chronic diseases can be considered a risk factor for infection by COVID-19 due to greater vulnerability and morbimortality. Therefore, patients with previous CVD are more likely to develop more severe conditions. However, in females, there was a lower prevalence of SARS by COVID-19 because there is a variation between the immune response and the susceptibility to viral infections between sexes, which generates differences in disease severity and evolution.In Wuhan, China, a meta-analysis with 46,248 infected patients analyzed the most prevalent comorbidities, with CVD (5±4%) in third place. Wang et al., 2020 evaluated only hospitalized patients affected by viral infection, which has shown a higher prevalence – 19.6% – CVD, which reinforces the fact that the comorbidity of CVD contributes an increased severity of COVID-19, given the evident need for hospitalization. In addition, the patients evolved with higher levels of hypoxemia and urgent hospitalization in ICUs.
In the study conducted by Melo, the results weresimilar to those found in a study in Italy – both analyzed over seven days in March 2020; it found a decrease of 13% of patients with acute myocardial infarction (AMI) associated in the same week of 2019. On the other hand, even though there was a reduction in AMI cases and in the rate of hospital deaths, there was an increase in the in-hospital lethality rate in hospitalizations for CVD. Both studies demonstrated the relationship of COVID-19 with the high prevalence of cardiac lesions and a great potential for COVID-19 severity in CVD, in which mortality of hospitalized patients with CVD reached the most economically active portion of the population – from 20 to 59 years of age.In view of that, the importance of medical follow-up of patients with chronic diseases is highlighted, since, according to Askin et al., in 2020, there was a marked increase in myocardial damage in patients with COVID-19, increasing the risk of morbimortality. Therefore, the appreciation of CVD as a complication associated with the COVID-19 virus, due to the increase of the disease symptoms, is of extreme significance for primary health care.The current situation requires strategies aimed at preventing complications associated with chronic diseases, such as CVD. Therefore, current data demonstrate the need for special attention to patients at high risk as well as proper management of cardiovascular complications, aiming at quickly identifying and applying adequate treatment. Furthermore, it is recommended that patients with CVD get vaccinated – due to the risk of secondary bacterial infection by SARS-CoV-2 – and adopt a proper diet, regular sleep and physical activity, avoiding smoking and alcohol consumption.
Reply
We would like to thank the authors for the analysis “Prevalence and Factors Associated with SARS caused by COVID-19 in Adults and Aged People with Chronic Cardiovascular Disease: A Critical Analysis”, especially due to the exposure of data reinforcing the findings presented in our study.
The analysis is also relevant because it includes information regarding the increase of in-hospital mortality rates in hospitalizations due to cardiovascular diseases (CVD) as a factor that further calls for the need to draw special attention to this group at risk in the analysis of complications associated with COVID-19.CVDs are established as risk markers in the Brazilian primary health care (PHC) in order to guarantee the longitudinality of user care and the development of preventive strategies aimed at the integral care of the community,
but it is essential to question the applicability of these actions in the family health strategy (FHS). The challenge of monitoring the users as a way of managing CVD suggests overcoming the imperative of actions that support the diagnostic and therapeutic system in the care and management of chronic conditions.
A recently published study with more than 100 million participants from around the world highlights the importance of prevention, detection and control in primary care, including in low- and middle-income countries, with proposals for actions that include sending text messages to check on users with risk factors.In the current context of facing the COVID-19 pandemic, this discussion is even more relevant because, as emphasized by the authors who conducted the critical analysis, the worsening of the symptoms of COVID-19 places CVDs as an important risk factor that affect screening, management and early intervention actions.Studies suggest the creation of proposals for models of care for chronic conditions, such as CVD, involving focus groups with positive results in the community, improvement of clinical indicators during follow-up, adoption of self-care practices and better analysis of the priorities in health planning.
Similarly, the World Health Organization (WHO) released an implementation guide for CVD management in primary care, with proposals for risk screening, assessment and management at this level of health care and education for professionals regarding the screening of risk factors, lifestyle interventions and the required referrals.
Especially regarding the management of users with CVD and persistent symptoms after COVID-19, the clinical and psychosocial complexity provided by the coexistence of these conditions calls for long-term multidisciplinary care. To conclude, we would like to express our gratitude for the possibility of reinforcing the need to review primary health care actions, especially in our current health context.
Authors: E K Yeoh; Martin C S Wong; Eliza L Y Wong; Carrie Yam; C M Poon; Roger Y Chung; Marc Chong; Yuan Fang; Harry H X Wang; Miaoyin Liang; Wilson W L Cheung; Chun Hei Chan; Benny Zee; Andrew J Stewart Coats Journal: Int J Cardiol Date: 2018-05-01 Impact factor: 4.164
Authors: Paulo Garcia Normando; José de Arimatéia Araujo-Filho; Gabriela de Alcântara Fonseca; Rodrigo Elton Ferreira Rodrigues; Victor Agripino Oliveira; Ludhmila Abrahão Hajjar; André Luiz Cerqueira Almeida; Edimar Alcides Bocchi; Vera Maria Cury Salemi; Marcelo Melo Journal: Arq Bras Cardiol Date: 2021-03 Impact factor: 2.000
Authors: Isabela Bispo Santos da Silva Costa; Cristina Salvadori Bittar; Stephanie Itala Rizk; Antônio Everaldo de Araújo Filho; Karen Alcântara Queiroz Santos; Theuran Inahja Vicente Machado; Fernanda Thereza de Almeida Andrade; Thalita Barbosa González; Andrea Nataly Galarza Arévalo; Juliano Pinheiro de Almeida; Fernando Bacal; Gláucia Maria Moraes de Oliveira; Marcus Vinícius Guimarães de Lacerda; Silvio Henrique Barberato; Antonio Carlos Palandri Chagas; Carlos Eduardo Rochitte; José Antonio Franchini Ramires; Roberto Kalil Filho; Ludhmila Abrahão Hajjar Journal: Arq Bras Cardiol Date: 2020-05-11 Impact factor: 2.000