A pandemia por COVID-19 teve um forte impacto na prestação de cuidados de saúde a nível mundial. As doenças cardiovasculares, incluindo as suas formas agudas não foram exceção. Logo nas primeiras semanas de pandemia, ainda no final do primeiro trimestre de 2020, foi notada uma franca redução dos recursos aos serviços de saúde quer em cuidados programados quer em admissões por síndromas coronárias agudas, com forte impacto no prognóstico imediato e com consequências futuras ainda não totalmente documentadas.[1,2]Para além do impacto direto do vírus no miocárdio, que condiciona uma morbilidade e mortalidade não desprezível,[3-6] também a redução do acesso a cuidados de saúde - que ocorreu tanto por uma canalização massiva dos recursos dos diferentes sistemas de saúde para o combate à pandemia, como pelo receio da população em recorrer a esses serviços durante a pandemia – está a ter um impacto importante no diagnóstico e tratamento da doença cardiovascular. Apesar da real dimensão deste impacto no prognóstico de pacientes com e sem COVID não estar ainda estabelecida é provável que a sua importância ultrapasse os efeitos diretamente determinados pela pandemia.[7]Desde cedo, a comunidade cardiológica se apercebeu do impacto que quer a pandemia, de forma mais ou menos direta, quer as medidas usadas para a combater – nomeadamente os confinamentos obrigatórios e o distanciamento social – teriam no diagnóstico das doenças cardiovasculares.[8]Um pouco por todo o mundo a comunidade científica organizou-se no sentido de promover um levantamento da nova realidade desencadeada pela pandemia de COVID-19 em termos de acesso aos cuidados de saúde na área cardiovascular. Para além de quantificar o seu real impacto na qualidade dos serviços prestados, este esforço coletivo tinha como objetivo adicional a identificação dos fatores que mais condicionaram esse acesso. Este conhecimento permite uma melhor compreensão do fenómeno e lança as bases para o desenvolvimento de estratégias que possam minimizar os seus efeitos quer em próximas vagas desta pandemia, quer em situações semelhantes que possam vir a ocorrer no futuro.De entre os diferentes grupos que em poucas semanas se organizaram para conseguir concretizar este levantamento a nível mundial destacou-se a International Atomic Energy Agency que, partindo da sua rede internacional de investigação clínica pré-existente – INCAPS – alargou o seu âmbito e implantação, tendo conseguido uma participação verdadeiramente surpreendente. Com o envolvimento ativo de cardiologistas, radiologistas e de médicos de outras especialidades dedicados ao diagnóstico cardiovascular de todo o mundo, o consórcio INCAPS COVID conseguiu obter dados relativos aos volumes diagnósticos cardíacos no início da pandemia (março e abril de 2020), bem como os de março de 2019 – que funcionou como base de comparação representativa do período pré-pandémico. Estes dados foram integrados com os dados de distanciamento social a partir dos Relatórios de mobilidade da comunidade de Google e com os dados relativos à incidência de COVID-19 por país a partir de “Our World in Data”. Usando esta estratégia foi possível um levantamento da realidade a nível global e regional, permitindo avaliar os impactos sentidos nas diferentes modalidades diagnósticas em cardiologia, de acordo com a região,[8-11] e, comparar estes dados entre diferentes áreas geográficas.[12]Neste número da revista ABC, Cerci RJ et al.[13] publicam os dados deste grupo relativo ao impacto da pandemia de COVID-19 na prestação de atendimento a doenças cardiovasculares na América Latina. Foram avaliados os volumes de diagnóstico cardíaco e determinada sua relação com a incidência de casos de COVID-19 e as medidas de distanciamento social usando dados de 194 centros de 19 países da América Latina.Em comparação com o mês de março de 2019, os volumes dos procedimentos diagnósticos cardíacos diminuíram de forma acentuada (36% em março e 82% em abril de 2020), com pequenas variações entre as sub-regiões da América Latina. A queda foi mais relacionada ao distanciamento social do que ao aumento da incidência da COVID-19, verificando-se uma maior redução no número de procedimentos diagnósticos no mês de menor mobilidade (abril) – que coincidiu com os períodos mais rígidos de confinamento de cada país. Curiosamente esta queda percentual foi superior à verificada no mesmo período na Europa Ocidental (46% e 69%, respectivamente) e na América do Norte (39% e 68%, respectivamente), apesar de estas regiões estarem a vivenciar o primeiro pico de incidência, enquanto que na América Latina a pandemia estava apenas no seu início. Isto parece justificar-se pelo facto da maioria dos países da América Latina, terem introduzido o isolamento social logo em março de 2020, apesar do reduzido número de casos. Estes dados reforçam a importância de um melhor equilíbrio entre medidas de distanciamento social e acesso ao atendimento médico durante um surto pandêmico, uma vez que a redução do acesso aos cuidados de saúde tende a agravar as desigualdades pré-existentes na qualidade dos serviços prestados e pode ser particularmente relevante em regiões com elevada mortalidade cardiovascular.[14,15]The COVID-19 pandemic has had a strong impact on healthcare delivery worldwide. Cardiovascular diseases, including their acute forms, were no exception. In the first weeks of the pandemic, at the end of the first quarter of 2020, there was a clear reduction in resources to health services, both in scheduled care and in admissions for acute coronary syndromes, with a strong impact on the immediate prognosis and with future consequences not fully documented.[1,2]In addition to the direct impact of the virus on the myocardium, which causes considerable morbidity and mortality,[3-6] there is also a reduction in access to health care - which occurred both as a result of a massive channeling of resources from the different health systems to the fighting the pandemic, as well as the population’s fear of resorting to these services during the pandemic – is having an important impact on the diagnosis and treatment of cardiovascular disease. Although the real dimension of this impact on the prognosis of patients with and without COVID has not yet been established, its importance likely exceeds the effects directly determined by the pandemic.[7]Early on, the cardiology community realized the impact that both the pandemic, more or less directly, and the measures used to combat it – namely mandatory confinements and social distancing – would have on the diagnosis of cardiovascular diseases.[8]All over the world, the scientific community organized itself to promote a survey of the new reality triggered by the COVID-19 pandemic in terms of access to health care in the cardiovascular area. In addition to quantifying its real impact on the quality of services provided, this collective effort had the additional objective of identifying the most relevant factors conditioning health access. This knowledge allows a better understanding of the phenomenon and lays the foundations for developing strategies that can minimize its effects both in the next waves of this pandemic and in similar situations that may occur in the future.Among the different groups that organized themselves in a few weeks to carry out this survey worldwide, the International Atomic Energy Agency stood out. Based on its pre-existing international network of clinical research – INCAPS – expanded its scope and implementation, having achieved a truly surprising turnout. With the active involvement of cardiologists, radiologists and physicians from other specialties dedicated to cardiovascular diagnosis from around the world, the INCAPS COVID consortium was able to obtain data regarding cardiac diagnostic volumes at the beginning of the pandemic (March and April 2020) as well as the March 2019 – which served as a representative comparison base for the pandemic loss. This data was integrated with social distancing data from Google’s Community Mobility Reports and data on COVID-19 incidence by country from “Our World in Data.” Using this strategy, it was possible to survey the reality at a global and regional level, allowing the assessment of the impacts felt in the different diagnostic modalities in cardiology, according to the region[8-11] and, comparing these data between different geographic areas.[12]In this issue of ABC journal, Cerci RJ et al.[13] publish data from this group regarding the impact of the COVID-19 pandemic on the provision of care for cardiovascular diseases in Latin America. Cardiac diagnostic volumes were evaluated, and their relationship to COVID-19 case incidence and social distancing measures was determined using data from 194 centers in 19 Latin American countries.Compared to March 2019, volumes of cardiac diagnostic procedures declined sharply (36% in March and 82% in April 2020), with small variations across Latin American subregions. The drop was more related to social distancing than to the increase in the incidence of COVID-19, with a greater reduction in the number of diagnostic procedures in the month of lower mobility (April) – which coincided with the strictest periods of confinement for each country. Interestingly, this percentage drop was higher than that seen in the same period in Western Europe (46% and 69%, respectively) and North America (39% and 68%, respectively). However, these regions were experiencing the first peak of incidence, while in Latin America, the pandemic just begining. This seems to be justified because most Latin American countries introduced social isolation as early as March 2020, despite the low number of cases. These data reinforce the importance of a better balance between social distancing measures and access to medical care during a pandemic outbreak. Reduced access to health care exacerbates pre-existing inequalities in the quality of services provided and can be particularly relevant in regions with high cardiovascular mortality.[14,15]
Authors: Patricia O'Sullivan; John Younger; Niels Van Pelt; Sue O'Malley; Dora Lenturut-Katal; Cole B Hirschfeld; Joao V Vitola; Rodrigo Cerci; Michelle C Williams; Leslee J Shaw; Paolo Raggi; Todd C Villines; Sharmila Dorbala; Andrew D Choi; Yosef Cohen; Benjamin Goebel; Eli Malkovskiy; Michael Randazzo; Thomas N B Pascual; Yaroslav Pynda; Maurizio Dondi; Diana Paez; Andrew J Einstein; Nathan Better Journal: Heart Lung Circ Date: 2021-05-16 Impact factor: 2.975
Authors: Isabela Bispo Santos da Silva Costa; Cristina Salvadori Bittar; Stephanie Itala Rizk; Antônio Everaldo de Araújo Filho; Karen Alcântara Queiroz Santos; Theuran Inahja Vicente Machado; Fernanda Thereza de Almeida Andrade; Thalita Barbosa González; Andrea Nataly Galarza Arévalo; Juliano Pinheiro de Almeida; Fernando Bacal; Gláucia Maria Moraes de Oliveira; Marcus Vinícius Guimarães de Lacerda; Silvio Henrique Barberato; Antonio Carlos Palandri Chagas; Carlos Eduardo Rochitte; José Antonio Franchini Ramires; Roberto Kalil Filho; Ludhmila Abrahão Hajjar Journal: Arq Bras Cardiol Date: 2020-05-11 Impact factor: 2.000
Authors: Rodrigo Julio Cerci; João Vicente Vitola; Diana Paez; Alejandro Zuluaga; Marcio Sommer Bittencourt; Lilia M Sierra-Galan; Patricia Carrascosa; Roxana Campisi; Claudia Gutierrez-Villamil; Amalia Peix; Duane Chambers; Mayra Sánches Velez; Carla M G Alvarado; Ana C F Ventura; Alejandro Maldonado; Alfredo P Castanos; Teresa C Diaz; Yariela Herrera; Manuel C Vasquez; Ana A Arrieta; Fernando Mut; Cole Hirschfeld; Eli Malkovskiy; Benjamin Goebel; Yosef Cohen; Michael Randazzo; Leslee J Shaw; Michelle C Williams; Todd C Villines; Nathan Better; Sharmila Dorbala; Paolo Raggi; Thomas N B Pascual; Yaroslav Pynda; Maurizio Dondi; Andrew J Einstein Journal: Arq Bras Cardiol Date: 2022-04 Impact factor: 2.000
Authors: Jorge Henrique Paiter Nascimento; Rafael Lessa da Costa; Luiz Fernando Nogueira Simvoulidis; João Carlos de Pinho; Roberta Santos Pereira; Andrea Dornelles Porto; Eduardo Costa de Freiras Silva; Liszt Palmeira Oliveira; Max Rogerio Freitas Ramos; Gláucia Maria Moraes de Oliveira Journal: Arq Bras Cardiol Date: 2021-02 Impact factor: 2.000
Authors: Gustavo Luiz Gouvêa de Almeida Junior; Fabricio Braga; José Kezen Jorge; Gustavo Freitas Nobre; Marcelo Kalichsztein; Paula de Medeiros Pache de Faria; Bruno Bussade; Guilherme Loures Penna; Vitor Oliveira Alves; Marcella Alecrim Pereira; Paula de Castro Gorgulho; Milena Rego Dos Santos Espelta de Faria; Luis Eduardo Drumond; Fabrini Batista Soares Carpinete; Ana Carolina Lessa Brandão Neno; Augusto César de Araújo Neno Journal: Arq Bras Cardiol Date: 2020-10 Impact factor: 2.000
Authors: Cole B Hirschfeld; Leslee J Shaw; Michelle C Williams; Ryan Lahey; Todd C Villines; Sharmila Dorbala; Andrew D Choi; Nishant R Shah; David A Bluemke; Daniel S Berman; Ron Blankstein; Maros Ferencik; Jagat Narula; David Winchester; Eli Malkovskiy; Benjamin Goebel; Michael J Randazzo; Juan Lopez-Mattei; Purvi Parwani; Joao V Vitola; Rodrigo J Cerci; Nathan Better; Paolo Raggi; Bin Lu; Vladimir Sergienko; Valentin Sinitsyn; Takashi Kudo; Bjarne Linde Nørgaard; Pál Maurovich-Horvat; Yosef A Cohen; Thomas N B Pascual; Yaroslav Pynda; Maurizio Dondi; Diana Paez; Andrew J Einstein Journal: JACC Cardiovasc Imaging Date: 2021-06-16