A progressão da remodelação cardíaca após o infarto do miocárdio é um evento complexo que envolve diversas reações biológicas, dentre elas, estresse oxidativo e resposta inflamatória. [1 - 4] A liberação de espécies reativas de oxigênio (EROs), após injúria isquêmica do miocárdio, estimula o aumento de mediadores pró-inflamatórios, envolvidos na proliferação de fibroblastos e no reparo tecidual na região infartada. No entanto, a produção sustentada de EROs, associada com sobrecarga hemodinâmica e incapacidade do sistema antioxidante, induz estresse oxidativo em áreas não infartadas que também sofrem remodelação cardíaca. [1 - 3] Essas alterações, acompanhadas da ocorrência de desordens do metabolismo energético, ativação de metaloproteinases, morte e hipertrofia cardiomiocitária, fibrose intersticial e disfunção ventricular, caracterizam o processo de remodelação cardíaca. [1]Estudos sobre variados compostos bioativos, frequentemente extraídos de alimentos, têm sido conduzidos com o propósito de atenuar desordens comuns à remodelação cardíaca, como estresse oxidativo e inflamação. [4 - 6] Entretanto, a extração e isolamento dessas substâncias pode demandar complexa rede de procedimentos técnicos especializados e de alto custo, dificultando financeiramente o acesso de grande parte da população a esse recurso. Ademais, sua ingestão isolada não permite a avaliação de potenciais efeitos derivados da interação entre componentes da matriz alimentar e do organismo que possam alterar os efeitos metabólicos. [7] Por outro lado, o consumo do alimento em sua totalidade atua como tampão no sistema digestivo, o que permite maior biodisponibilidade de seus compostos ativos. Em vista disso, abordagens nutricionais envolvendo ingestão de alimentos naturais, como frutas e seus produtos (cascas, sucos, polpas, purê, geleia, entre outros), que tenham em sua composição substâncias com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias, têm despertado cada vez mais interesse. [6 , 8] Nesse contexto, cabe destaque às frutas cítricas, ricas em compostos bioativos que podem promover alterações metabólicas e proteger tecidos de lesões resultantes do acúmulo de EROs. [7] Sucos de frutas cítricas, em geral, são fontes abundantes de vitamina C e contribuem com o fornecimento de outros nutrientes, como potássio, folato, magnésio, além de vitamina A [9] e compostos polifenólicos. [10] Nesse sentido, o suco de laranja é uma matriz alimentar complexa e tem demonstrado potencial cardioprotetor devido à sua composição e capacidade antioxidante e anti-inflamatória. [9 - 11]Na presente edição dos Arquivos Brasileiros de Cardiologia, Oliveira et al. [12] mostram os benefícios do consumo de suco de laranja, levando-se em conta seu papel antioxidante e cardioprotetor, em modelo experimental de remodelação cardíaca após infarto do miocárdio. Conforme esperado, o infarto de miocárdio desencadeou processo de remodelação cardíaca, caracterizada por hipertrofia cardíaca e prejuízo do desempenho sistólico e diastólico do ventrículo esquerdo, acompanhados de aumento do estresse oxidativo e de marcadores inflamatórios e alterações do metabolismo energético. O consumo de suco de laranja melhorou a função sistólica e diastólica do ventrículo esquerdo, assim como diminuiu a atividade da glutationa peroxidase e a concentração de interferon gama (INF-γ) no miocárdio de animais infartados. Com relação ao metabolismo energético, os ratos infartados que consumiram suco de laranja mostraram maior atividade de ATP sintase e fosfofrutoquinase, enzimas chave do metabolismo energético. Outro achado importante desse estudo foi o aumento da expressão proteica da heme-oxigenase-1, sugerindo importante efeito antioxidante e anti-inflamatório em resposta ao tratamento com suco de laranja em animais infartados.Portanto, há indícios de que a inclusão de produtos naturais na dieta pode contribuir como adjuvante na atenuação da remodelação cardíaca pós infarto do miocárdio. Estudos futuros são necessários para melhor elucidar os efeitos cardioprotetores de intervenções com este e outros produtos naturais.Post myocardial infarction cardiac remodelling progression is a complex event involving several biological reactions; these include oxidative stress and inflammatory response.[1 - 4] The release of reactive oxygen species (ROS) after myocardial ischemia stimulates pro-inflammatory mediators involved in fibroblast proliferation and tissue repair in the infarcted area. However, sustained ROS production in combination with hemodynamic overload and antioxidant system incapacity leads to oxidative stress in non-infarcted areas, which also undergo cardiac remodelling.[1 - 3] These changes, associated with energy metabolism disorders, metalloproteinases activation, cardiomyocyte death and hypertrophy, interstitial fibrosis, and cardiac dysfunction characterize the cardiac remodelling process.[1]Studies on various bioactive compounds, often extracted from food, have been undertaken to assess their attenuating powers on disorders common to cardiac remodelling, such as oxidative stress and inflammation.[4 - 6] However, the extraction and isolation of these substances can require a complex network of costly specialized technical procedures making it financially difficult for a large part of the population to access this resource. Additionally, taken in isolation one cannot evaluate the potential effects of interactions between food matrix components and the organism which may alter the metabolic effects.[7] Alternatively, consuming the food in its entirety acts as a buffer in the digestive system allowing greater bioavailability of its active compounds. Therefore, nutritional approaches involving ingestion of natural foods, such as fruits and their products (peels, juices, pulps, puree, and jams, etc), which contain substances with antioxidant and anti-inflammatory properties, have increasingly gained interest.[6 , 8] It is worth mentioning citrus fruits, which are rich in bioactive compounds that may change the metabolism and protect tissues from ROS accumulation injuries.[7] Citrus fruit juices, in general, are abundant sources of vitamin C and other nutrients, such as potassium, folate, magnesium, vitamin A,[9] and polyphenolic compounds.[10] In this sense, orange juice is a complex food matrix with cardioprotective potential due to its antioxidant and anti-inflammatory capacity.[9 - 11]In this edition of ABC, Oliveira et al.[12] show the benefits of orange juice consumption, taking into account its antioxidant and cardioprotective role, in rats with cardiac remodelling after myocardial infarction. As expected, myocardial infarction triggered the cardiac remodelling process, characterized by cardiac hypertrophy and impaired left ventricle systolic and diastolic performance, accompanied by increased oxidative stress and inflammatory markers, and changed energy metabolism. Consumption of orange juice improved left ventricle systolic and diastolic dysfunction, and decreased myocardial glutathione peroxidase activity and interferon gamma (INF-γ) concentration. Regarding energetic metabolism, infarcted rats that consumed orange juice had higher myocardial ATP synthase and phosphofructokinase activity, key enzymes of energy metabolism. Another important finding in the study was increased heme-oxigenase-1 expression, suggesting an antioxidant and anti-inflammatory response to treatment with orange juice in infarcted animals.There is therefore evidence that including natural products in the diet contributes as an adjunct in attenuating cardiac remodelling after myocardial infarction. Future studies are needed to better elucidate the cardioprotective effects of interventions with this and other natural products.
Authors: Nesrine Boussetta; Salma Abedelmalek; Aloui Khouloud; Amel Ben Anes; Nizar Souissi Journal: Int J Environ Health Res Date: 2019-05-13 Impact factor: 3.411
Authors: Paula F Martinez; Camila Bonomo; Daniele M Guizoni; Silvio A Oliveira Junior; Ricardo L Damatto; Marcelo D M Cezar; Aline R R Lima; Luana U Pagan; Fabio R Seiva; Denise C Fernandes; Francisco R M Laurindo; Ethel L B Novelli; Luiz S Matsubara; Leonardo A M Zornoff; Katashi Okoshi; Marina P Okoshi Journal: Cell Physiol Biochem Date: 2015-01-02
Authors: Bruna C Oliveira; Priscila P Santos; Amanda M Figueiredo; Bruna P M Rafacho; Larissa Ishikawa; Silméia G Zanati; Ana A H Fernandes; Paula S Azevedo; Bertha F Polegato; Leonardo A M Zornoff; Marcos F Minicucci; Sergio A R Paiva Journal: Arq Bras Cardiol Date: 2021-06 Impact factor: 2.000