Literature DB >> 31093041

[Analysis of the Vaccine Adverse Event Reporting System in Brazil, 2014 to 2016Análisis del Sistema de Información de Vigilancia de Eventos Adversos Posvacunación en Brasil, 2014 a 2016].

Flávia Caselli Pacheco1, Carla Magda Allan Santos Domingues1, Ana Goretti Kalume Maranhão1, Sandra Maria Deotti Carvalho1, Antonia Maria da Silva Teixeira1, Rui Moreira Braz1, Renata Cristina Freitas Rebelo1, Dirce Bellezi Guilhem2.   

Abstract

OBJECTIVE: To describe the characteristics of vaccine adverse events (VAE) reports in the online VAE Reporting System (VAE-RS) after 2 years of operation.
METHOD: A descriptive analysis of VAE reports entered into the VAE-RS between July 2014 and June 2016 was performed.
RESULTS: During the study period, 24 732 VAE were reported. Of 5 570 Brazilian municipalities, 2 571 (46.2%) reported at least one VAE; however, only 1 622 (6.6%) reports had been completed/closed at the end of the study period. Of these, 89.9% referred to mild VAE. Among the completed reports, 19.7% did not provide information on "type of medical care provided," and 98.7% had no information regarding laboratory tests. Systemic neurological symptoms were the most frequent serious VAE among closed reports (59.5% of serious signs/symptoms). Concerning age, the highest VAE reporting coefficients were recorded for children aged ≤ 4 years.
CONCLUSION: The VAE-RS is useful to monitor immunization safety. However, municipal services must increase adherence to the system and perform the required investigation and reporting of VAE, with timely and adequate completion of the VAE-RS form. Knowledge regarding VAE can be used in the daily routine of surveillance services, improving the safety of immunobiological agents.

Entities:  

Keywords:  Brazil; Vaccination; descriptive; epidemiology; information systems; public health

Year:  2018        PMID: 31093041      PMCID: PMC6385780          DOI: 10.26633/RPSP.2018.12

Source DB:  PubMed          Journal:  Rev Panam Salud Publica        ISSN: 1020-4989


Os eventos adversos pós-vacinação (EAPV) são ocorrências clínicas indesejadas ou não intencionais que ocorrem após a vacinação, sem que haja necessariamente uma relação causal com o uso da vacina ou outro imunobiológico (1). Eventos desse tipo podem envolver um sintoma, uma doença ou um achado laboratorial anormal. Podem também ser relacionados à composição da vacina, à técnica usada em sua administração, aos próprios indivíduos vacinados – sendo a predisposição genética individual um importante fator no desenvolvimento de algumas desordens após a vacinação –, ou à coincidência com outros agravos (1–4). Os EAPV não graves são mais frequentes e causam manifestações clínicas de leves a moderadas no local ou próximo ao sítio de administração da vacina (5–7). Por sua vez, os eventos adversos considerados graves, embora menos frequentes, requerem hospitalização por pelo menos 24 horas ou prolongamento de hospitalização já existente, produzem disfunção significativa ou incapacidade persistente (sequela), podem resultar em anomalia congênita e, quando apresentam risco de morte, exigem intervenção clínica imediata para evitar o óbito (1–3). No Brasil, os registros de EAPV em indivíduos vacinados na rede pública são disponibilizados pelo Ministério da Saúde, por meio da Coordenação Geral do Programa Nacional de Imunizações (PNI), no Sistema de Informação da Vigilância de Eventos Adversos Pós-Vacinação (SI-EAPV) (8, 9). O PNI iniciou a vigilância de EAPV em 1992, sendo a notificação compulsória instituída em 15 de julho de 2005 (3). Para os serviços da rede privada, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) disponibiliza o Sistema Nacional de Notificações para a Vigilância Sanitária (NOTIVISA) (10). Assim, os EAPV notificados no país procedem de duas fontes. Para subsidiar o preenchimento das informações no sistema pelos profissionais, é disponibilizado um formulário próprio de investigação/notificação e o Manual de Vigilância dos EAPV, com informações sobre principais eventos relacionados às vacinas utilizadas na rede pública e instruções sobre a conduta a ser adotada ante a ocorrência desses agravos. Essa avaliação refere-se ao instrumento de notificação dos eventos no SI-EAPV, versão on-line (3). Diante da importância do conhecimento sobre EAPV e sobre sua ocorrência para a tomada de decisões acertadas nos serviços e práticas de saúde a eles relacionados, este estudo teve como objetivo descrever as características das notificações de EAPV no SI-EAPV on-line nos primeiros 2 anos de operação do sistema.

MATERIAIS E MÉTODOS

Foi realizado um estudo descritivo com base nas notificações de EAPV registradas no Sistema de Informações do Programa Nacional de Imunizações (SI-PNI), módulo SI-EAPV, no período de 1° de julho de 2014 (data de implantação da versão on-line do SI-EAPV) a 31 de junho de 2016. Foram analisadas todas as notificações registradas nesse período. Ressalte-se que, neste estudo, não foram incluídas as notificações realizadas no NOTIVISA, que é utilizado para os serviços de vacinação privados e se constitui em um sistema separado de notificação de EAPV. A análise teve abrangência nacional, com dados por unidade federativa. Somente foram utilizados dados secundários, sem possibilidade de identificação de indivíduos, sendo portanto dispensada a aprovação por Comitê de Ética.

Variáveis

Foram analisados os casos de EAPV com e sem encerramento. As seguintes variáveis foram analisadas para os casos de EAPV encerrados: data do preenchimento da notificação; data de encerramento; tempo de encerramento (intervalo entre a notificação e o encerramento: 1 a 3 meses, 4 a 6 meses, 7 a 9 meses, 10 a 12 meses, 13 a 17 meses); faixa etária (< 1 ano, 1 ano, 2 anos, 3 anos, 4 anos, 5 a 9 anos, 10 a 14 anos, 15 a 19 anos, 20 a 29 anos, 30 a 39 anos, 40 a 49 anos, ≥ 50 anos); sexo (masculino, feminino); raça/cor (parda, branca, negra, amarela, indígena, não informado); tipo de EAPV (não grave, grave, erro de imunização, erro de imunização com evento adverso); atendimento médico (sim, não, ignorado); tipo de atendimento médico (ambulatorial, observação, hospitalização, não informado); registro de exames laboratoriais (sim, não); e evolução do caso (cura sem sequelas, cura com sequelas, em acompanhamento, não é EAPV, óbito, outros). O coeficiente de incidência foi calculado para cada 100 000 habitantes. Os eventos adversos graves encerrados foram classificados de acordo com as manifestações clínicas (manifestações locais, manifestações clínicas sistêmicas em pele e mucosa, manifestações clínicas sistêmicas cardiovasculares, manifestações clínicas sistêmicas respiratórias, manifestações sistêmicas neurológicas, manifestações clínicas sistêmicas gastrintestinais, outras manifestações). Para análise dos casos notificados de EAPV sem encerramento, foram utilizadas as seguintes variáveis: número de notificações por municípios; número de notificações por unidade federativa e coeficiente de incidência em 100 000 habitantes. As notificações de EAPV também foram analisadas com base no calendário nacional de vacinação do país e no número de doses aplicadas por faixa etária. Para crianças com até 30 dias de vida, observou-se a vacina hepatite B. Nas crianças menores de 1 ano, foram consideradas as vacinas oral rotavírus humano, BCG, pentavalente, meningocócica C conjugada, pneumocócica 10 valente conjugada, poliomielite inativada e poliomielite oral. Para as crianças com idade entre 1 e 4 anos, foram consideradas as vacinas hepatite A, tríplice viral e tetra viral. Para meninas entre 9 e 14 anos de idade considerou-se a vacina papilomavírus humano (HPV) quadrivalente; e entre os idosos (≥ 60 anos), as vacinas consideradas foram influenza trivalente, hepatite B e febre amarela. Os dados populacionais por faixa etária e unidade federativa, bem como o número de municípios por unidade federativa, foram gerados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e disponibilizados no site Datasus [Informações de Saúde (Tabnet) > Demográficas e socioeconômicas > População residente > Censos]. Esses dados foram utilizados para cálculo do coeficiente de incidência de EAPV por faixa etária, por unidade federativa, e do número e proporção de municípios que realizaram notificações para EAPV. O número de doses aplicadas no período do estudo foi extraído do SI-PNI (Consultas > Informações > Estatística > Doses aplicadas).

Controle de viés e análise estatística

Para evitar o viés de informação, foram analisadas somente as notificações registradas a partir de 1° de julho de 2014, período de implantação do sistema, mesmo que algumas unidades federativas tivessem realizado a retroalimentação dos casos suspeitos de EAPV no SI-EAPV. Essa medida foi adotada para evitar que municípios que fizeram a implantação do SI-EAPV posteriormente tivessem baixas notificações quando comparados aos que já estavam com o sistema implantado. A completude e a consistência dos registros foram avaliadas apenas para as notificações encerradas. Os dados foram analisados por meio de estatística descritiva, utilizando-se o programa Microsoft Excel 2010.

RESULTADOS

Entre 1° de julho de 2014 e 31 de junho de 2016, foram administradas 309 072 286 doses de imunobiológicos no Brasil. Desse total, 24 732 casos foram notificados como suspeitos de terem desenvolvido EAPV no sistema público. Dos 5 570 municípios brasileiros, 2 571 (46,2%) realizaram a notificação de algum EAPV, envolvendo as 27 unidades da federação. Os estados do Espírito Santo e de Minas Gerais, ambos na região Sudeste, apresentaram a maior proporção de municípios com notificação de casos suspeitos de EAPV (tabela 1). A tabela 2 mostra a distribuição das 24 732 notificações de EAPV de acordo com imunobiológico e faixa etária.
TABELA 1

Distribuição dos municípios com notificação de eventos adversos pós-vacinação por unidade federativa, Brasil, julho de 2014 a junho de 2016

Região e unidade federativaNo. total de municípiosMunicípios com notificação
No.%
Norte45010623,6
Rondônia522038,5
Acre221359,1
Amazonas6269,7
Roraima15426,7
Pará1442215,3
Amapá16318,8
Tocantins1393827,3
Nordeste1 79469338,6
Maranhão2175826,7
Piauí2244419,6
Ceará1849451,1
Rio Grande do Norte1671810,8
Paraíba2235524,7
Pernambuco1855228,1
Alagoas1024342,2
Sergipe753952,0
Bahia41729069,5
Sudeste1 66891554,9
Minas Gerais85357567,4
Espírito Santo785874,4
Rio de Janeiro924447,8
São Paulo64523836,9
Sul1 19162652,6
Paraná39927769,4
Santa Catarina2953712,5
Rio Grande do Sul49731262,8
Centro-Oeste46723149,5
Mato Grosso do Sul793645,6
Mato Grosso1415740,4
Goiás24613755,7
Distrito Federal11100,0
Brasil5 5702 57146,2
TABELA 2

Distribuição das 24 732 notificações de eventos adversos pós-vacinação de acordo com imunobiológico e faixa etária, Brasil, julho de 2014 a junho de 2016

Idade/vacinaNo. dosesNo. de eventos adversos pós-vacinação
30 dias
Hepatite B7 646 884201
< 1 ano
Vacina oral rotavírus humano16 665 91816 870
BCG8 914 7862 645
Pentavalente25 213 40229 280
Meningocócica C conjugada16 903 4601 579
Pneumocócica 10 valente conjugada22 557 93416 615
Poliomielite inativada10 017 79218 112
Poliomielite oral1 507 2131 857
1 a 4 anos
Hepatite A6 519 6201 201
Tríplice viral21 527 7512 925
Tetra viral5 031 8501 153
9 a 14 anos
HPV quadrivalente112 2922 251
60 anos ou mais
Influenza trivalente1 935 992795
Hepatite B1 064 49383
Febre amarela324 80681
A tabela 3 mostra a distribuição por unidade federativa dos 24 732 casos suspeitos de EAPV registrados no SI-EAPV no período do estudo por unidade federativa e o número de casos encerrados por região/unidade federativa. Do total acumulado de EAPV notificados no Brasil, somente 1 622 (6,6%) estavam encerrados ao final do período do estudo.
TABELA 3

Total de notificações de eventos adversos pós-vacinação por unidade federativa e proporção de casos encerrados, Brasil, julho de 2014 a junho de 2016

Região/unidade federativaNotificaçõesCasos encerrados
No.%No.% do total de notificações para a unidade
Norte7583,020226,6
Rondônia1020,41110,8
Acre1850,711361,1
Amazonas1780,721,1
Roraima500,21938,0
Pará1030,4--
Amapá70,0--
Tocantins1330,55742,9
Nordeste4 02216,31 08627,0
Maranhão1710,72514,6
Piauí1740,74224,1
Ceará5982,46010,0
Rio Grande do Norte360,13288,9
Paraíba2771,110,4
Pernambuco1480,610,7
Alagoas2190,95625,6
Sergipe2010,812160,2
Bahia2 1988,974834,0
Sudeste10 71343,32132,0
Minas Gerais5 13820,81563,0
Espírito Santo6652,7142,1
Rio de Janeiro1 3895,670,5
São Paulo3 52114,2361,0
Sul7 29529,5721,0
Paraná3 86715,6220,6
Santa Catarina2090,8--
Rio Grande do Sul3 21913,0501,6
Centro-Oeste1 9447,9492,5
Mato Grosso do Sul2711,120,7
Mato Grosso2701,141,5
Goiás1 2034,9423,5
Distrito Federal2000,810,5
Brasil24 732100,01 6226,6
Em relação às características das 1 622 notificações com encerramento, observou-se que o sexo feminino representou 949 (58,5%) dos casos notificados e o masculino, 673 (41,5%). Embora a raça/cor parda tenha sido a mais frequente (36,6%) entre as notificações encerradas, vale notar que essa informação foi preenchida em apenas 67,5% dos registros, como mostra a tabela 4. Em relação às faixas etárias encontradas no estudo, os maiores coeficiente de incidência de notificações encerradas de EAPV em 100 000 habitantes foram registrados entre os menores de 4 anos de idade. O coeficiente de incidência de EAPV em 100 mil habitantes foi o seguinte: 0,52 para < 1 ano; 18,85 para idade de 1 ano; 15,83 para 2 anos; 3,24 para 3 anos; 1,07 para 4 anos; 0,89 para a faixa dos 5 aos 9 anos; 0, 54 para a faixa de 10 a 14 anos; 0,28 para a faixa de 15 a 19 anos; 0,16 para a faixa de 20 a 29 anos; 0,21 para a faixa de 30 a 39 anos; 0,23 para a faixa de 40 a 49 anos; e 0,16 para idade ≥ 50 anos.
TABELA 4

Características das 1 622 notificações de eventos adversos pós-vacinação com encerramento, Brasil, julho de 2014 a junho de 2016

CaracterísticaNo.%
Sexo
Masculino67341,5
Feminino94958,5
Raça/cor
Parda59336,6
Branca38823,9
Negra915,6
Amarela181,1
Indígena50,3
Não informado52732,5
Tipo de evento adverso pós-vacinação
Não grave1 29579,8
Grave16310,0
Erro de imunização1519,3
Erro de imunização com evento adverso130,8
Atendimento médico
Sim85452,7
Não44927,7
Ignorado31919,7
Tipo de atendimento médico
Ambulatorial47629,3
Observação19712,1
Hospitalização835,1
Não informado86653,4
Registro de exame laboratorial
Sim211,3
Não1 60198,7
Evolução do caso
Cura sem sequelas1 31080,8
Cura com sequelas261,6
Em acompanhamento784,8
Não é evento adverso pós-vacinação110,7
Óbito60,4
Outros412,5
Não informado1509,2
Tempo de encerramento do caso (meses)
1 a 377247,6
4 a 646428,6
7 a 930718,9
10 a 12643,9
13 a 17150,9
Foram classificados como não graves 1 295 (79,8%) dos casos notificados. Houve atendimento médico em 854 (52,7%) dos casos notificados; contudo, 319 (19,7%) tiveram o preenchimento desta variável ignorada. No que tange ao tipo de atendimento, somente 83 (5,1%) necessitaram de hospitalização, ao passo que 866 (53,4%) não informaram o tipo de atendimento recebido (tabela 4). Do total de 1 622 notificações, 1 601 (98,7%) não apresentaram registro de nenhum resultado laboratorial. A evolução ocorreu com cura sem sequelas em 1 310 (80,8%) de todas as notificações encerradas no período do estudo. As manifestações clínicas sistêmicas neurológicas foram as mais frequentes entre os eventos adversos graves encerrados no sistema, com 97 ocorrências, correspondendo a 59,5% dos sinais e sintomas. Essas foram seguidas por outras manifestações (17/10,4%), manifestações locais (16/9,8%) e por manifestações clínicas sistêmicas em pele e mucosa (16/9,8%), gastrintestinais (11/6,7%), respiratórias (3/1,8%) e cardiovasculares (3/1,8%). A variável manifestações clínicas foi preenchida em todos os 1 622 registros. O óbito foi registrado em seis (0,4%) casos notificados e encerrados (tabela 5), sem ter tido necessariamente uma relação causal com a vacinação. Além disso, 11 casos (0,7%) não foram confirmados como EAPV após investigação. O tempo de encerramento foi entre 1 e 3 meses em 772 (47,6%) das notificações encerradas (tabela 4).
TABELA 5

Características dos seis óbitos em notificações de eventos adversos pós-vacinação com encerramento, Brasil, julho de 2014 a junho de 2016

IdadeVacinaDiagnóstico notificado no sistemaa
3 anosTríplice viralMeningoencefalite
1 ano e 7 mesesVacina oral de rotavírus humanoObstrução do trato gastrintestinal
1 ano e 2 mesesVacina oral de rotavírus humanoDor abdominal agravada
13 anos e 3 mesesHPV quadrivalenteCefaleia, agitação mental, hipotonia, irritabilidade e letargia
1 ano e 5 mesesVacina oral de rotavírus humanoDor gastrintestinal, parada cardiorrespiratória e choque séptico
15 anos e 5 mesesHPV quadrivalenteEncefalite

Os óbitos não têm necessariamente uma relação com a vacina.

Os óbitos não têm necessariamente uma relação com a vacina.

DISCUSSÃO

O presente estudo se propôs a avaliar os dados registrados nos 2 primeiros anos de operação do SI-EAPV on-line. Os municípios da região Sudeste foram, proporcionalmente, os que mais notificaram os EAPV. Por sua vez, em relação ao coeficiente de incidência de notificações para a população residente no estado, o Paraná (região Sul) foi o que apresentou o maior valor. No que concerne à gravidade, a maioria dos EAPV notificados foi não grave. O óbito ocorreu em um número reduzido de casos. Entende-se que a variação no número de notificações registradas pelos municípios em cada unidade federativa pode ser resultado da baixa adesão ao registro de notificações; mas pode, também, ser resultado da implantação recente, em alguns estados, do módulo on-line do SI-EAPV, ou da ausência de recursos humanos treinados ou com conhecimento adequado para registro das notificações nessas unidades federativas. Outro fator que pode interferir no registro dos casos suspeitos de EAPV está relacionado a problemas estruturais, como a dificuldade de concluir os relatórios para fechamento dos casos, dificuldades na conexão do SI-PNI/SI-EAPV com a base de dados nacional e curto tempo disponibilizado pelo sistema para o preenchimento das fichas de notificação (caso o notificador demore com o preenchimento da ficha no sistema, terá que iniciar novamente a sessão). A mitigação desses problemas é de responsabilidade do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (SUS) e deve merecer atenção. Tais fatores podem comprometer a adoção de medidas adequadas e oportunas diante de EAPV (11), além de favorecerem o descrédito da vacinação por parte dos imunizados, dos seus familiares e dos próprios profissionais de saúde, que podem atribuir às vacinas eventos que não se devem a elas, ou que refletem apenas uma associação temporal (12, 13). Em relação à proporção de notificações de EAPV, as cinco regiões do país apresentaram risco de EAPV. Contudo, esse risco distribuiu-se de forma desigual entre elas. Estudos realizados no Brasil também constataram distribuição heterogênea dos EAPV, com maiores incidências em regiões com desenvolvimento considerado alto, como as regiões Sudeste e Sul (14). Ao serem comparados os resultados deste estudo com outros estudos realizados nas unidades federativas, observou-se que, em 2011, o estado do Ceará notificou 402 EAPV (15) e Minas Gerais, 1 449 (16). O estado de Pernambuco notificou 1 167 casos entre 2009 e 2013 (17), e Rondônia registrou 516 casos entre 1998 e 2008 (18). Mais de 90% dos casos notificados no SI-EAPV não foram encerrados até a data de atualização do banco de dados. Outros estudos também encontraram um elevado número de notificações sem encerramento, o que leva a inferir que existem problemas na qualidade da informação do SI-EAPV – como erros na digitação, incompletude dos campos e falhas no fluxo de informações (16, 19). O tempo de encerramento da maioria dos casos foi inferior a 6 meses, porém alguns demandaram um tempo superior a 7 meses. No que se refere ao sexo, embora a diferença tenha sido pequena, houve maior ocorrência de EAPV entre o sexo feminino. Quanto ao preenchimento da variável raça/cor, o valor encontrado não foi satisfatório quando comparado à completude de 98% identificada em outros estudos brasileiros, embora o sistema de informação tenha sido diferente (20, 21). O preenchimento dessa variável fornece elementos importantes para um diagnóstico da situação de saúde dos indivíduos com notificação de EAPV, permitindo o planejamento de ações, programas e políticas para esta população. Os EAPV mais frequentes foram classificados como não graves, reforçando a segurança das vacinas utilizadas no país. Por outro lado, a subnotificação dos eventos impede a generalização desse achado. A maior ocorrência de eventos não graves está de acordo com os achados de outros estudos realizados em diversos países (22–24). Constataram-se registros de erros de imunização. Porém, sabe-se que eles podem ter ocorrido em função de erro programático, como resultado do preparo, manejo ou administração inadequados da vacina; ou podem ter sido coincidentes, ocorrendo após a vacinação por uma associação apenas temporal, sem nexo causal (25). Aproximadamente um quinto dos casos notificados teve o preenchimento da variável “atendimento médico” ignorada. A proporção de casos hospitalizados foi baixa, o que remete, provavelmente, à baixa gravidade. Além disso, verificou-se também que a maioria dos casos evoluiu sem sequelas. O percentual de ocorrências que evoluíram ao óbito e a não gravidade dos casos foi semelhante ao divulgado em relatório dos Estados Unidos que, entre 2006 e 2010, relatou morte em 0,6% dos casos, 7,7% de eventos adversos graves não fatais e 91,7% de eventos não graves (26). A baixa gravidade observada nos eventos não deveria inibir a realização de exames laboratoriais como hemograma, gota espessa, elementos anormais e sedimentoscopia, citologia do líquor, bacterioscopia e exames de diagnóstico por imagem em situações que requeiram este recurso (3). É indispensável uma criteriosa avaliação clínica e laboratorial dos casos para a busca rigorosa do diagnóstico etiológico e causal, com a finalidade de que o EAPV não seja atribuído à vacina sem fundamentação científica nem elucidação adequada do diagnóstico (27–29). Ao se observar o maior coeficiente de incidência de EAPV por 100 000 habitantes entre os menores de 4 anos de idade, é importante notar que, devido ao calendário nacional de vacinação adotado pelo PNI, o maior número de vacinas – um total de 13 imunobiológicos – é disponibilizado pelas mais de 37 mil salas de vacinação do SUS para esta faixa etária. O mesmo foi relatado em crianças até 5 anos de idade, entre os anos de 1999 e 2008, em Cuba (30). Informações equivocadas sobre EAPV podem diminuir a adesão à vacinação. Sabe-se que, diante da redução, ou até mesmo eliminação de doenças infecciosas imunopreveníveis, alguns indivíduos deixam de se preocupar com o risco de serem infectados, e cada vez mais se preocupam com os riscos associados às vacinas (1, 2). Porém, muitos países compreenderam a importância de reunir informações mais completas sobre os EAPV e os erros de imunizações e incorporaram em suas rotinas de trabalho sistemas de vigilância dos EAPV (31, 32). Como limitações deste estudo destacam-se a ausência de notificações em todos os municípios do país, o número elevado de notificações sem encerramento e a falta de qualidade de informações registradas no SI-EAPV. Além disso, foram analisadas somente as notificações registradas a partir de 1° de julho de 2014, período de implantação do sistema, mesmo que algumas unidades federativas tivessem realizado a retroalimentação dos casos suspeitos de EAPV no SI-EAPV ou tivessem mais registros de eventos notificados em outra fonte de informação. Finalmente, outra limitação é o fato de não terem sido incluídas informações do sistema de notificação da saúde suplementar. Em conclusão, o conhecimento e a divulgação das análises do sistema de notificação de EAPV são importantes para a saúde pública, tanto no planejamento quanto na implementação de uma ação efetiva por parte de gestores, profissionais e população. Neste estudo, observou-se que os municípios precisam ampliar a adesão ao SI-EAPV, bem como preencher a ficha de notificação de forma mais adequada e oportuna. A solicitação dos exames laboratoriais deve ocorrer para subsidiar o encerramento adequado do caso suspeito, bem como a avaliação médica e a investigação minuciosa de cada caso. Os problemas estruturais do sistema precisam ser sanados o mais brevemente possível pela área responsável no SUS. Os serviços de imunização, nas três esferas de governo, devem divulgar os dados relacionados ao banco SI-EAPV por meio de boletins semanais, quinzenais ou mensais, adequando a linguagem de comunicação para os profissionais de saúde e para a população. É importante que todos, nas suas devidas competências, estejam aptos a detectar sinais e sintomas relacionados aos EAPV e busquem, o mais rapidamente possível, o serviço de saúde apropriado, para evitar complicações e risco de morte. O entendimento equivocado dos profissionais de saúde e da população em relação aos EAPV pode comprometer a adesão à vacinação e levar ao ressurgimento de doenças imunopreveníveis controladas ou eliminadas no país.
  18 in total

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Authors:  Fabiana Ramos Martin de Freitas; Helena Keico Sato; Clélia Maria Sarmento de Souza Aranda; Benedito Antonio Figueiredo Arantes; Maria Aparecida Pacheco; Eliseu Alves Waldman
Journal:  Rev Saude Publica       Date:  2007-12       Impact factor: 2.106

Review 8.  Global safety of vaccines: strengthening systems for monitoring, management and the role of GACVS.

Authors: 
Journal:  Expert Rev Vaccines       Date:  2009-06       Impact factor: 5.217

9.  Surveillance for safety after immunization: Vaccine Adverse Event Reporting System (VAERS)--United States, 1991-2001.

Authors:  Weigong Zhou; Vitali Pool; John K Iskander; Roseanne English-Bullard; Robert Ball; Robert P Wise; Penina Haber; Robert P Pless; Gina Mootrey; Susan S Ellenberg; M Miles Braun; Robert T Chen
Journal:  MMWR Surveill Summ       Date:  2003-01-24

10.  Pharmacovigilance: a worldwide master key for drug safety monitoring.

Authors:  G Jeetu; G Anusha
Journal:  J Young Pharm       Date:  2010-07
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1.  Adverse events following immunization in pregnant women from Minas Gerais.

Authors:  Isabela Oliveira da Silveira; Thales Philipe Rodrigues da Silva; Bianca Maria Oliveira Luvisaro; Roberta Barros da Silva; Josianne Dias Gusmão; Aline Mendes Vimieiro; Valéria Conceição de Oliveira; Karina Cristina Rouwe de Souza; Ana Paula Vieira Faria; Fernanda Penido Matozinhos
Journal:  Rev Saude Publica       Date:  2021-05-17       Impact factor: 2.772

2.  Retrospective study of immunization errors reported in an online Information System.

Authors:  Tânia Cristina Barboza; Rafael Alves Guimarães; Fernanda Raphael Escobar Gimenes; Ana Elisa Bauer de Camargo Silva
Journal:  Rev Lat Am Enfermagem       Date:  2020-06-19
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