O acesso vascular é o procedimento mais comum realizado entre pacientes hospitalizados. É uma habilidade médica fundamental que exige de seu executor uma série de destrezas de cunho técnico e anatômico1. Procedimentos comuns incluem acesso venoso periférico para fins diagnósticos e terapêuticos, punção arterial nos procedimentos endovasculares e acessos cirúrgicos com abordagem vascular. No entanto, o acesso vascular pode proporcionar potenciais riscos e complicações, como infiltrações locais, formação de trombos, flebite, hematomas e sangramentos2
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4.Al-Elq1 afirma que os modelos de simulação são uma alternativa para minimizar essas complicações e aliar conhecimento técnico ao conhecimento teórico, além de serem capazes de oferecer um ambiente seguro para profissionais em formação e evitar os dilemas éticos de treinamento direto em pacientes ou em animais. O autor associou a simulação médica à possibilidade de uma aprendizagem eficaz e a um potencial para obter melhores resultados no manejo dos pacientes. Com esse objetivo, surgiram diversos manequins de treinamento, mas devido ao seu alto custo eles não são acessíveis a todos5.Durante a formação acadêmica, os profissionais da área da saúde frequentemente realizam procedimentos, sejam eles ambulatoriais ou cirúrgicos, sem que tenham um treinamento prévio. Portanto, é comum que, pela falta de prática e pela influência de fatores psicológicos, ocorram falhas na execução desses procedimentos6.Dessa forma, o objetivo deste trabalho foi desenvolver um modelo de ensino e treinamento de acesso vascular periférico, utilizando um modelo de baixo custo para fins educacionais.
MÉTODOS
Para realização do modelo proposto, foram necessários os seguintes materiais (Tabela 1): macarrão de polietileno expandido de baixa densidade, de aproximadamente 45 cm; quatro equipos de soro; duas hastes de balão de festa; 20×40 cm de courvin; prancha de compensado; suporte metálico; braçadeiras plásticas; furadeira; soro fisiológico e corantes azul e vermelho.
Tabela 1
Lista de materiais utilizados.
Material
• Macarrão de polietileno expandido de baixa densidade (45 cm)
• Quatro equipos de soro
• Duas hastes de balão de festa
• 20×40 cm de tecido courvin
• Prancha de compensado (70×30 cm)
• Suporte metálico
• Cinco braçadeiras plásticas
• Soro fisiológico
• Corantes azul e vermelho
• Furadeira
Para preparação do modelo, seguiram-se as seguintes etapas:Confecção da base:Com auxílio da furadeira, fez-se oito orifícios na prancha de compensado. Em seguida, procedeu-se à fixação do suporte metálico na prancha com duas braçadeiras plásticas inseridas nos orifícios laterais e presas na base do suporte (Figura 1).
Figura 1
Finalização da base, com fixação do suporte de metal na prancha.
Confecção do modelo:O modelo foi feito a partir de 45 cm de macarrão de polietileno expandido de baixa densidade envolto por 20×40 cm de tecido courvin, para simulação do tecido muscular e pele respectivamente. Foram realizados orifícios no interior do macarrão de polietileno de modo a permitir a passagem de equipos de infusão e de duas hastes de balão de festa, em toda sua extensão longitudinal, a fim a simular a anatomia simplificada do antebraço (Figura 2). Nas bolsas de 500 mL de soro fisiológico foram acrescentados corante vermelho e azul para reproduzir didaticamente o sangue arterial o sangue venoso respectivamente, enquanto as hastes de balão de festa simularam os ossos rádio e ulna. A bolsa foi instalada no suporte de metal, facilitando a ação da gravidade (Figura 3). Por fim, o modelo foi fixado na base através das braçadeiras plásticas. A partir de então foi possível iniciar a prática do procedimento.
Figura 2
Visão transversal do macarrão de polietileno permitindo a visualização dos equipos de infusão e das duas hastes de balão de festa.
Figura 3
Resultado final: modelo sintético de antebraço.
RESULTADOS
O modelo criado apresentou configuração adequada para a representação mais realista dos tecidos humanos durante o ensino dos acessos vasculares, como a punção arterial e venosa e acessos cirúrgicos no membro superior (Figura 4A). O formato sugerido para o modelo apresentou semelhança com a anatomia normal do antebraço simplificada, identificando-se claramente os vasos sanguíneos, seu conteúdo líquido, os tecidos adjacentes e os planos teciduais (Figura 4B e C). O modelo se mostrou prático na punção e, devido à sua extensão, tem-se a possibilidade de puncionar diversas vezes o mesmo modelo, facilitando o treinamento.
Figura 4
Treinamento e ensino dos acessos vasculares: (A) Criação da via de acesso na pele; (B) Exposição dos tecidos adjacentes; (C) Identificação do vaso sanguíneo e seu conteúdo líquido azul, representando o sistema venoso do antebraço.
DISCUSSÃO
O acesso vascular é um procedimento que pode ser feito em diversos locais; porém, sua realização no braço e antebraço é a mais comum, pois estes possuem rica vascularização e são de fácil acesso. Vários fatores devem ser considerados para a realização do procedimento, como facilidade de inserção e acesso, tipo de agulha ou cateter a ser utilizado, bem como conhecimento da anatomia local. No presente modelo, achou-se necessário, além do treinamento da técnica, a reprodução da anatomia simplificada, visto que a região representada pelo modelo é território de veias e artérias importantes e muito utilizadas nas terapias endovenosas.Inúmeros trabalhos na literatura referem que o índice de complicação é maior quanto menor for a experiência do operador, necessitando-se, portanto, de padronizações de treinamento para a adequada realização do acesso vascular. Para suprir a necessidade de destreza, foram desenvolvidos diversos modelos industriais de manequins de simulação humana, classificados em baixa, média e alta fidelidade. Este último tipo é caracterizado pelo alto custo de aquisição e necessidade de conhecimento avançado de operação técnica por parte de docentes e estudantes, e, ainda que representem aumento nos gastos em educação, essas tecnologias vêm ao encontro das expectativas de novas gerações de estudantes da área da saúde6
,
7.O modelo proposto se assemelha com o manequim simulador anatômico do braço para acesso venoso comercializado pela indústria e disponível em várias marcas, com a vantagem de ser útil para a aquisição não somente da técnica de punção arterial e venosa como também de acessos vasculares para procedimentos cirúrgicos, noções de diérese em planos e treinamento de suturas. No contexto atual, a Educação Médica Baseada em Simulação (EMBS) já faz parte do currículo educacional de muitas universidades na América do Norte e Europa, e tal fato estimula diversas instituições de ensino a desenvolverem seus próprios simuladores, que permitam o treinamento e a aquisição do conhecimento a um custo mais baixo em relação aos disponíveis no mercado1
,
8.O treinamento extensivo das habilidades práticas tem como objetivo seguir de forma simulada os mesmos passos aplicados na abordagem ao paciente e corrigir erros mais frequentes. A descrição desse modelo permite sua fácil reprodução, visto que os materiais usados na confecção são de fácil acesso e o método empregado na montagem é simples. Deve-se ressaltar, entretanto, que, o modelo serve como instrumento prático inicial. Para o aprimoramento da técnica, é fundamental a prática no paciente.
CONCLUSÃO
O modelo proposto permite o treinamento de acesso vascular periférico, sendo uma alternativa de baixo custo, passível de confecção artesanal e que pode ser utilizada para fins educacionais.
INTRODUCTION
Vascular access is the procedure most frequently performed on hospitalized patients. It is a basic medical skill and its performance demands a series of technical and anatomical skills and dexterity.1 Common variants of the procedure include peripheral venous access for diagnostic and therapeutic reasons, arterial puncture for endovascular procedures, and surgical procedures via vascular access. However, vascular access can cause a series of potential risks and complications, such as local infiltration, formation of thrombi, phlebitis, hematoma, and bleeding.2
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4Al-Elq1 has stated that simulation models are one option for minimizing these complications and combining technical knowledge with theoretical knowledge, while offering a safe option for training health professionals that avoids the ethical dilemmas of direct training with patients or animals. This author associated medical simulation with the possibility of effective learning and the potential to achieve better results when managing patients. Many training dolls have been produced to achieve this objective, but their high cost means that they are not universally available.5It is common for health professionals to perform clinical or surgical procedures during their academic courses with no prior training. It is therefore common that errors occur during these procedures, whether because of the lack of experience or due to the influence of psychological factors.6In view of the above, this study was conducted with the objective of developing a low-cost teaching model for training peripheral vascular access.
METHODS
The following materials were used to construct the model proposed (Table 1): approximately 45 cm of a low density expanded polyethylene foam noodle; four saline kits; two party balloon sticks; a 20×40 cm sheet of synthetic leather; a piece of laminate board; a metal drip stand; plastic cable ties; a drill; 2 saline packs; and blue and red dyes.
Table 1
List of materials used.
Material
• Low density expanded polyethylene foam noodle (45 cm)
• Four saline kits
• Two party balloon sticks
• 20×40 cm sheet of synthetic leather
• Laminate board (70×30 cm)
• Metal drip stand
• Five plastic cable ties
• Saline
• Blue and red dyes
• Drill
The following steps were taken to construct the model:Preparation of the base:The drill was used to make eight holes in the laminate board. The metal drip stand was then fixed to the board with two plastic cable ties inserted through holes at the side and fixed to the base of the drip stand (Figure 1).
Figure 1
Base prepared and metal stand fixed to board.
Construction of the model:The model was constructed from a 45 cm length of low density expanded polyethylene foam noodle wrapped in a 20×40 cm piece of synthetic leather, to simulate the muscle tissue and skin, respectively. Holes were bored through the polyethylene noodle to allow the infusion kits and the two party balloon sticks to be advanced all the way through it longitudinally, simulating a simplified anatomy of the forearm (Figure 2). The 500 mL saline packs were colored red and blue to indicate arterial blood and venous blood respectively, while the balloon sticks represent the radius and ulna bones. The packs were hung on the metal support to facilitate the action of gravity (Figure 3). Finally, the model of the forearm was fixed to the base using plastic cable ties. It was then ready to be used to practice the procedure.
Figure 2
Cross-sectional view of polyethylene noodle showing infusion kits and two party balloon sticks.
Figure 3
Final result: synthetic model of the forearm.
RESULTS
The model created offers an appropriate configuration to realistically represent human tissues during teaching of vascular accesses, such as arterial and venous punctures and surgical accesses via the upper limb (Figure 4A). The format proposed for the model exhibits similarity to the normal forearm anatomy, although simplified, clearly identifying blood vessels, their liquid contents, adjacent tissues, and tissue layers (Figure 4B and C). The model proved practical for puncture and, because of its length, the same model could be punctured several times, facilitating training.
Figure 4
Training vascular accesses: (A) Achieving access route in the skin; (B) Exposure of adjacent tissues; (C) Identification of blood vessel and its blue liquid content, representing the venous system of the forearm.
DISCUSSION
Vascular access is a procedure that can be performed at many different sites, but the arm and forearm are the most common, because they are richly vascularized and offer easy access. Several factors should be considered in relation to the procedure, such as ease of insertion and access, type of needle or catheter to be used, and anatomical knowledge of the chosen site. It was decided that the model presented here should include a simplified reproduction of the anatomy rather than just the vessels, since the area represented is a territory in which there are important veins and arteries that are very often used for intravenous treatments.Countless studies in the literature report that the rate of complications is greater, the lower the level of experience of the person performing the procedure, showing that there is a need to standardize training to ensure that vascular access is perforemd correctly. In order to meet the requirement for dexterity, several manufactured human simulation dolls have been developed and can be classified as low, medium, or high fidelity. High fidelty models are expensive to purchase and require advanced knowledge of their technical operation by both teachers and students and although they are responsible for increasing the cost of education, a new generatuion of students studying health-related subjects expect to have access to these technologies.6
,
7The model proposed here is similar to commercially-available dolls that simulate the anatomy of the arm for venous access that are produced by several different brands and offers the advantage of utility not only for acquisition of arterial and venous puncture techniques, but also vascular accesses for surgical procedures, notions of dissection by layers, and suture training. Simulation-Based Medical Education is already part of the curicula at many universities in North America and Europe, which has encouraged many teaching institutions to develop their own simulators to enable training and knowledge acquisition at a lower cost than comercially available versions.1
,
8Extensive training of practical skills aims to reproduce in a simulated manner the same steps employed when managing patients and correct the most common errors. The description of this model enables it to be easily reproduced, since the materials used to construct it are easily sourced and the construction method is simple. It should be emphasized, however, that this model is an initial practical instrument. To perfect the technique, practice with patients is of fundamental importance.
CONCLUSIONS
The model proposed enables training of peripheral vascular access and is a low-cost alternative that can be made by hand and used for educational purposes.
Authors: Christopher A Troianos; Gregg S Hartman; Kathryn E Glas; Nikolaos J Skubas; Robert T Eberhardt; Jennifer D Walker; Scott T Reeves Journal: Anesth Analg Date: 2011-11-29 Impact factor: 5.108
Authors: Dayane Aparecida Francisco da Silva; Aline Angela Fernandes; Ana Evellyn Ventrone; Ariane Dias; Ana Maria Siqueira Silveira; Cecilia Laposy Santarém; Gabrielle Gomes Dos Santos Ribeiro; Rosa Maria Barilli Nogueira Journal: Vet World Date: 2021-02-15