Florentino Fernandes Mendes1. 1. Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), Porto Alegre, RS, Brasil. Electronic address: florentinomendes@gmail.com.
A COVID‐19 estará presente na nossa população nos próximos meses (ou até que a vacina esteja disponível) e, além das restrições individuais à liberdade, teremos que enfrentar os impactos negativos na economia com seus desdobramentos sociais: desemprego, depressão, fome, suicídios, violência contra as mulheres, abuso de drogas, entre outros. Condições sabidamente implicadas no aumento de óbitos.Considerando especificamente a nossa atividade, a situação que vivenciamos não encontra paralelo na história moderna e, portanto, inexiste informação disponível para comparar e projetar qual será o efeito da interrupção das cirurgias na saúde pública.Para que o retorno das cirurgias eletivas aconteça com segurança, será indispensável a participação efetiva dos serviços de anestesia junto aos comitês gestores com o intuito de disponibilizar todos os recursos para o enfrentamento da pandemia, gerenciando possíveis desabastecimentos, e com o objetivo de desenvolver e adaptar protocolos assistenciais.Nas cirurgias eletivas de pacientes não infectados, uma alta vigilância deve ser mantida e os princípios de distanciamento social, uso de proteção para pacientes e equipes assistenciais, observados em todos os casos. Durante cirurgias eletivas, relatos de aumento da mortalidade e de eventos adversos ao contrair COVID‐19 são preocupantes e justificam cuidados adicionais, como a testagem e o isolamento prévio.3, 4Em decorrência dos custos associados e da escassez de equipamentos de proteção, a gestão hospitalar tende a recomendar o uso de proteção máxima apenas em casos positivos para COVID‐19, mesmo que isso coloque alguma incerteza quanto à proteção de todos os envolvidos. Este é outro tema sensível e delicado que precisará ser enfrentado.Por outro lado, em todo o mundo, a disponibilidade de acesso à cirurgia é reconhecida como um recurso escasso, existindo um desafio global para prover cirurgias e anestesias seguras como prioridade.5, 6 Estimativas sugerem que aproximadamente 330 milhões de cirurgias são realizadas anualmente em todo o mundo, a grande maioria nos países desenvolvidos. Considerando a média global de cerca de seis milhões de procedimentos por semana, o represamento das cirurgias e as novas exigências de segurança exigirão soluções inovadoras.Como exemplo da grave situação, segundo o Observatório Global do Câncer da OMS, 500.000 pacientes são diagnosticados com câncer colorretal anualmente na Europa e quatro milhões com qualquer tipo de câncer. Em dois meses de pandemia, haveria atraso no diagnóstico de 83.000 pacientes com câncer colorretal e em mais de 660.000 pacientes com qualquer outro tipo de câncer. Essa estimativa não incluiu o tempo necessário para normalizar a atividade e solucionar a lista de pendências, portanto, o impacto negativo pode ser muito maior, principalmente porque desconhecemos as implicações do represamento das cirurgias no agravamento da condição clínica do paciente, em sua saúde e bem‐estar.No Brasil, o vírus chegou oficialmente em 25 de Fevereiro, na cidade de São Paulo. A crise já dura, portanto, cinco meses e deve se prolongar até o final de 2020 em diferentes partes do país, o que faz supor que a conjuntura possa ser ainda mais crítica e que os hospitais e o sistema de saúde sofrerão fortes impactos econômicos. Considerando a gravidade da situação enfrentada, cabem algumas perguntas aos anestesistas e às suas entidades representativas: Como os serviços de anestesia podem agregar valor e reduzir custos? Que atitudes/medidas deveriam ser priorizadas? Qual, afinal, será a nossa contribuição?Dados do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) demonstram que 61% do Índice de Custo Médico Hospitalar, uma espécie de medida da inflação médico‐hospitalar no Brasil, se deve à internação hospitalar. Portanto, uma medida prioritária e de grande representatividade será reduzir o tempo de internação.Como o custo fixo do centro cirúrgico é elevado, impõe‐se também a redução do tempo de realização de cada cirurgia, potencializando a utilização do centro cirúrgico. Entretanto, a realização mais rápida da cirurgia não pode comprometer a segurança do paciente, pois quando ocorre uma complicação, o custo associado à cirurgia aumenta significativamente.Isoladamente, a complicação perioperatória mais frequente é a infecção. De fato, infecções da ferida operatória estão entre as mais sérias e comuns complicações perioperatórias e, provavelmente, causam mais morbidade que todas as outras complicações anestésicas somadas, sendo que metade delas podem ser prevenidas. O paciente com infecção tem cinco vezes mais chance de reinternar e aumenta o tempo médio de internação em 3 a 4 dias.Diante dos desafios apresentados, especial atenção deve ser dada ao controle de fatores de risco para desenvolver infecção perioperatória. Principalmente a hipotermia, a desnutrição e a resistência à insulina.Protocolos como o projeto Aceleração da Recuperação Total Pós‐Operatória (ACERTO) e o Enhanced Recovery After Surgery (ERAS), com base em evidências, já foram testados no Brasil e em várias partes do mundo e deveriam receber especial atenção na retomada das cirurgias eletivas, pois são alternativas de fácil execução para reduzir a morbimortalidade perioperatória, o tempo de internação e os custos associados.Em síntese, nesse período de grandes incertezas, impõe‐se a aplicação da melhor evidência científica, a adaptação dos protocolos, a correta utilização dos recursos e das estruturas disponíveis e a elaboração de um plano de recuperação dos serviços priorizando os pacientes que apresentam condições clínicas com maior risco de deterioração.
Authors: F D McDermott; M E Kelly; A Warwick; T Arulampalam; A J Brooks; T Gaarder; B A Cotton; D C Winter Journal: Br J Surg Date: 2015-12-14 Impact factor: 6.939
Authors: Thomas G Weiser; Alex B Haynes; George Molina; Stuart R Lipsitz; Micaela M Esquivel; Tarsicio Uribe-Leitz; Rui Fu; Tej Azad; Tiffany E Chao; William R Berry; Atul A Gawande Journal: Bull World Health Organ Date: 2016-03-01 Impact factor: 9.408
Authors: H Holmer; A Bekele; L Hagander; E M Harrison; P Kamali; J S Ng-Kamstra; M A Khan; L Knowlton; A J M Leather; I H Marks; J G Meara; M G Shrime; M Smith; K Søreide; T G Weiser; J Davies Journal: Br J Surg Date: 2018-12-20 Impact factor: 6.939
Authors: K Søreide; J Hallet; J B Matthews; A A Schnitzbauer; P D Line; P B S Lai; J Otero; D Callegaro; S G Warner; N N Baxter; C S C Teh; J Ng-Kamstra; J G Meara; L Hagander; L Lorenzon Journal: Br J Surg Date: 2020-04-30 Impact factor: 6.939
Authors: Vinícius Caldeira Quintão; Cláudia Marquez Simões; Laís Helena Navarro E Lima; Guilherme Antônio Moreira de Barros; Marcello Fonseca Salgado-Filho; Gabriel Magalhães Nunes Guimarães; Rodrigo Leal Alves; Ana Maria Menezes Caetano; André Prato Schmidt; Maria José Carvalho Carmona Journal: Braz J Anesthesiol Date: 2020-03-21
Authors: Ali Aminian; Saeed Safari; Abdolali Razeghian-Jahromi; Mohammad Ghorbani; Conor P Delaney Journal: Ann Surg Date: 2020-07 Impact factor: 13.787
Authors: Ofir Koren; Moriah Shachar; Amit Shahar; Mohammad Barbour; Ehud Rozner; Daniel Benhamou; Alisa Leeds Rosenberg; Yoav Turgeman; Robert Naami; Edmund Naami; Einat Mader; Saleem Abu Rajab Journal: Am J Med Sci Date: 2022-02-27 Impact factor: 3.462